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Aurorar 4.0

Com sentimento, no ideário virtual de um percurso real.

Aurorar 4.0

Com sentimento, no ideário virtual de um percurso real.

Epílogo ou hiato?! Depende do caminho…

 

     E num minuto, de uma hora, de um dia, de um ano, acontece. Nesse instante fugaz de discernimento, ou de insensatez, o caminho, que sempre esteve presente, torna-se forçoso, irrecusável. Os caminhos com falsas distâncias assemelham-se aos outros caminhos, é certo, mas permitam-me o deleite e o silêncio.

 

Fragmentos

 

     Emito e perpetuo um silêncio, não por falta de cortesia, não por desagrado, mas por não ter palavras que não pareçam banalidades, lugares-comuns, bajulação, e que exprimam simultaneamente a minha concordância e compreensão completa e absoluta. Lamentavelmente não poderá ver a minha expressão de felicidade e benignidade e não poderá sentir a minha aceitação por inevitável e fisicamente se encontrar tão longe e afectiva e mentalmente tão próximo.

 

     Os fragmentos do dia dissolvem-se na noite.

 

De passagem

 

     O rosto. Um rosto familiar, latente, numa expressão que não consigo descrever. Consegui vislumbrar todo um vulto cansado no reflexo, enquanto lavava as mãos de uma parte do dia.

 

     De seguida, já só com imagens alheias, passou perto a vulgaridade de um despacho distraído, pairou no ar saturado de odores de iguarias e, por fim, desvaneceu-se pela chegada de outro motivo de meditação. Consegui sintetizar a minha observação. Anotei uma deslocação apressada num sentimento expresso e aclarei alguns sentidos enquanto me deslocava. Próximo, um pardal ardiloso procurava o sustento, para si e para os seus, que não se encontravam muito distantes. A ousadia, o sentido de oportunidade, o sentido prático numa cena tão ingénua e tão calculada.

 

     Dilui-me na passagem.

 

Metáfora

 

     Encontro-me a matar o tempo. Um curto-circuito num desabafo. As metáforas são um terreno fértil, por parte dos receptores e/ou dos emissores, na origem e/ou no destino, para a crítica jocosa, para o escárnio, para mal-entendidos. No entando, gosto das metáforas. Gosto da sua astúcia e subtileza. Preocupa-me quando procede de um aprisionado, de um censurado, de um amordaçado.

 

     Não interessa se em letras de ouro ou por pessoas de letras grossas, entendo quem não compreende uma metáfora, assim como, entendo quem interpreta uma [metáfora] literalmente. A minha tolerância é uma enorme planície, com algumas, pequenas, elevações e, pequeno, depressões, é certo. Há dias mais amargos.

 

Instantâneo diferido

 

Momentos. Revejo alguns negativos, tiras antigas de filme fotográfico, revelados mas não divulgados. As suas manchas ganham vida no meu cérebro, e crescem lembranças, momentos, histórias. A profundidade de campo, por vezes diminuta, revela novos incidentes ou confirma a profundidade e a elevação das recordações.

 

Os pequenos espelhos transformam alguns retalhos de vida. Nivelam a sua importância para uma zona mais neutra e diluem-se numa diferença de cor e na presença da imobilidade. Outras fracções de existência, vistas por este prisma, agigantam-se ou diminuem.

 

Crescem e afrouxam sorrisos; desaparecem, ou despontam, embaraços, vergonhas. Memórias.

 

No fundo, revejo alguns positivos.

 

"Banquinho" de meditação

 

Enquanto espero por um novo imposto, Setembro deixou de ser um segredo.

 

Sentado num banco, atrás do espelho, mais ausente do que escondido, enrolo os pergaminhos soltos da minha vida. Surpresas ou nem tanto: Contas.

 

Contas para pagar, para contar, para referir, para rezar… Creio que tenho contas a mais no meu rosário. Um verdadeiro milagre de multiplicação, reprodução, ou apenas ciência das finanças.

 

Sequer

 

Não encontro a forma, nem a fórmula. Recolho-me e encolho-me. É inútil forçar a natureza, esta mola, mole e teimosa.

 

Hoje colho todos os ventos, os que, de facto, semeei e aqueles que dizem ter semeado. Permito-me ser flexível. Não pretendo acrescentar ódio e ira a quem vem. Por vezes sabe bem ser de outra têmpera, ainda que destemperada.

 

Conta à ordem

 

Não me escondi, nem fingi desconhecer. Cumprimentei o contorno perdido e simulado num novo fato que espelha o formato sério de uma exposição que decorria nos corredores de um centro comercial excêntrico. Abriguei-me e contrai-me. De nada vale constranger, ainda que livremente, a natureza sujeita. A imagem logrou figurar o reflexo de uma metáfora e de uma ironia, ou de um conjunto de figuras de estilo numa falta de estilo.


Se fosse apenas um espectador e não conhece-se a personagem, não deambularia por estas vielas escusadas e escusas. Não posso fingir a indiferença. Julguei pressentir um desprezo, que me é permeável, transparente e alheio.

 

Recolhi a saudação caída. Segui pelo atalho que pretendia trilhar. Não há nada a acrescentar. Não quero analisar. Quero, isso sim, colorir um novo dia e abrir uma conta à ordem num banco de sorrisos.

 

O SA morreu

 

Não nutro qualquer preocupação com a possibilidade de morrer. A minha morte, pelo menos quando estou acordado, não me assusta. Já desejei morrer quando, acima de tudo, o que mais amava era a vida. Mas nunca reagi bem à notícia da morte daqueles que, de alguma forma, me são próximos, ou dos seus familiares. Fico pesaroso e, acima de tudo, sem palavras. O assunto, enquanto fresco, emudece-me, bloqueia-me, descoordena-me.

 

Quando o R telefonou para me informar sobre a morte do SA, fiquei prisioneiro de um breve instante de imobilidade, sem reacção. A ladainha continuava, na mesma cadência hesitante, trémula, emocionada e, por bem, lenta. R contava que, aparentemente, o SA se tinha suicidado. Assimilei, sempre em silêncio, que o SA se enforcara; estava a divorciar-se; foi encontrado ao terceiro dia.

 

No final da narrativa, sem a noção do tempo, por fim, quebrei a minha mudez e perguntei sobre a data de realização do funeral, que já decorrerá. Articulei as perguntas e as expressões mais ou menos habituais sobre sentimentos, circunstâncias, reacções, afectos. Formulei as perguntas usuais entre pessoas que não se vêem e não se falam há muito tempo. Agradeci o telefonema. Concordamos sobre a carência de um encontro, acordando-o sem o acordar, realizar-se-á um dia. Cumprimentos, abraços e desligamos. Pousei o telemóvel e fiquei imóvel, em silêncio, no silêncio possível de um início de dia.

 

Há mortes para além da morte física.

 

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